terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ficção não é mentira


Amplie a imagem. Vai por mim: compensa!


_ Tudo o que você vê no cinema é mentira, meu filho. Os livros, os filmes, as lendas: mentiras que as pessoam inventam! Nada disso existe!


Assim uma mãe cuidadosa suavizou meus medos infantis, diante de filmes terríveis como King Kong ou O Planeta dos Macacos. O quê? Você não os achou terríveis? Bem, eu era novo demais, talvez...


Agradeço a boa vontade. Acho que dormi melhor em algumas noites daquela infância tão distante. Mas, mãe, acredite: você estava errada. 

O que a gente vê no cinema, nos livros, nos contos populares, não são mentiras. São formas diferentes de dizer, cada homem e cada mulher, a sua própria verdade. E a verdade de um indivíduo nunca é uma mentira, mesmo que pareça estranha ou feia demais. O mesmo ocorre com as religiões, que não são mais que a sacralização de um ponto de vista.


Com essa descoberta deixei para trás um mundo muito pobre, onde as possibilidades eram um canteiro estreito e todos pretendiam viver a mesma vida, cercados por  um muro de concreto.  A arte foi a porta para a liberdade.


Quando você olha para uma escultura, passa pela sua cabeça que ela seja uma mentira? Uma ilusão? Não, é claro. Ela está ali, palpável. Você sabe que ela é resultado da manipulação da matéria-prima e que o escultor imprimiu, com sua técnica, um olhar pessoal.



Da mesma forma, a ficção não é uma mentira! É a arte de modelar a vida e repartir um sentimento diante dela.



Viver em um mundo sem o muro, vez ou outra ainda me amedronta. Nem sempre durmo tão bem como na velha casa de meus pais.



Mas nunca estive tão acordado!



 

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A África nossa de cada dia.


  Leia como quiser, mas eu gosto mais ouvindo a música do texto de baixo.



Se Darwin não tivesse existido, ou se tivesse sido, sei lá, marinheiro ou comerciante, a teoria da evolução não faria parte de nossa história. Eu não teria como saber, olhando para os leões aí de cima, que temos ancestrais em comum e que há uma plataforma muito semelhante em nossas biologias.


Mas teria, ainda assim, um sentimento muito forte de identificação, impossível de evitar. Não dá para olhar esses dois, sem reconhecer com exatidão o sentimento de estar assim, em aconchego, tão pertinho de um igual. Cabeça com cabeça, o silêncio e mais nada...


O que causaria certos constrangimentos, como você pode imaginar:


_ Nosso pai não tá legal!

Ou então:

_ Isso só pode ser coisa do demo!

Ou pior:

_ Credo, se comparando com um leão? Qualquer dia vai se comparar com um jumento! Se bem que aí, talvez, pensando bem...

Mas são apenas hipóteses. Darwin enfretou os contrangimentos e a ira da resistência religiosa por mim.  E, também, isso tudo é só um pretexo para dizer que eu adoro encontrar um semelhante. Quis retratar isso em uma imagem e escolhi os bichanos para fazer uma ponte com o texto anterior, sobre a savana.


Lendo e sendo lido tenho encontrando cabeças bem próximas da minha! Cada uma por um motivo, mas todas deixando a mesma sensação de companheirismo. Gente generosa que me ensina, que me lapida e alimenta de olhares novos sobre o mundo. Prosa e poesia, filosofia e música, humor, drama... E de repente há uma colcha inteira de retalhos, formada por sentimentos, pensamentos e biografias que de tão múltiplos formam uma peça coerente! Tão colorida que me lembra a Poesia em Chita, da Zenilda Lua, que escolheu tão bem o veículo da sua delicadeza!


Rubem Alves, na "orelha" de um livrinho delicioso (Pergutaram-me se Acredito em Deus - Editora Planeta), fala sobre os rituais antropofágicos, lembrando que o que se buscava com eles era apropriar-se das virtudes da vítima. Um canibal não fazia seu ritual por razões gastronômicas. Queria a essência do devorado. Queria o que o outro tinha de forte, de grande, de belo! Quem escreve, ensina ele, oferece seu sangue para que circule no corpo de quem lê. O leitor, então,  assimila ou rejeita esse sangue conforme a afinidade.



Pense em seus mestres mais queridos e veja o quanto deles circula em você ainda hoje. O magistério, como vejo, é o sacerdócio que permite comer da carne alheia, sem diminuir a vida de quem tem a virtude que nos falta. Sorte do Luiz, professor e amigo que pouco a pouco tem me transformado em violonista e continua vivo!



No texto anterior, a Mai falou sobre a presença da África em nosso inconsciente coletivo. Respondendo por mim, acho que faz muito sentido. Quando penso "a duas cabeças", como disse a ela nos comentários, tenho a sensação boa de quem anda com sua manada, ou descansa com sua leoa.  


Enfim: leio como um canibal e ofereço o que escrevo como quem alimenta uma tribo.


Darwin, Rubem, vocês me salvaram da camisa-de-força!




terça-feira, 3 de novembro de 2009

Homo Sapiens



Não, não sou eu, apesar da semelhança...


Quando abriu os olhos na savana, de alguma forma ele era eu. 

Mas não totalmente.

Era um protótipo de mim. Um antepassado que, claro, não se sabia assim. Era e pronto.


Ao longo da sua vida, que deve ter sido curta, teve dúvidas muitas vezes. E teve medo muitas vezes. E fome de umas coisas que ele conhecia e de outras que nem imaginava. Em muitos dias não soube o que fazer e, quando descobriu, não sabia como. Se não fosse assim, se não houvesse essa angústia, não teria inventado a arte e se empenhado tanto em deixá-la registrada. Está lá, em cada caverna pintada.

Em uns dias ele soube como se proteger da solidão. Eu disse uns dias...



Entre um e outro desses episódios ele caçou também, porque algumas fomes, como todos sabemos, não se resolvem com tintas e idéias. E, mesmo, não havia bolsa tribo, auxílio caverna ou coisa parecida. 

Acasalou muitas vezes e com certeza não se perguntou absolutamente nada no momento de cada gozo. Poucas coisas a gente pode afirmar pelo outro e essa é uma delas. Dúvida existencial pode surgir um instante antes e outro depois. Mas durante le petit mort, mesmo,eu duvido.


Quanto aos filhos, ensinou o que sabia, alimentou com o que dispunha e protegeu como pode, com razoável sucesso, é evidente. Caso contrário não haveria ninguém para pensar nisso agora. 

Essa história poderia acabar aqui, mas falta um pedaço.


É que hoje eu abri os olhos cheio de fome. De umas coisas que eu conheço e de outras que só imagino. Cheio de dúvidas. Cheio de medo. Nos últimos quarenta anos muitas vezes não soube o que fazer. Quando descobri o que fazer, não sabia como. Sei que preciso caçar, pois há filhotes para fazer crescer, para alimentar, ensinar, proteger. Há hienas urbanas e contemporâneas esperando minha indecisão. Cabe a mim fazer com que fiquem esperando.


Já sei também que a arte ajuda a sobreviver na savana. Se você está aqui, conhece as paredes da minha caverna virtual.



O fato é que quando eu abri os olhos nesta manhã, de alguma forma eu era ele.


Mas não totalmente.


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Brilho eterno de uma mente sem lembranças





Ouço o tema do filme repetidamente há três dias. Não sei bem o motivo, como não sei bem quase nada em minha vida. No máximo, lembrando o Guimarães Rosa, desconfio de muita coisa.

O que sei é que tenho me sentido como o Joel, personagem do Jim Carrey, quando o filme começa. Parado na estação,  ele sente um impulso incontrolável de ir a um lugar específico, sem saber o porquê.  Seguindo o impulso vai parar  em Montauk, a praia aí de baixo, encontra a Clementine e a história segue. Mas, no meu caso, nem sei que lugar é esse. Mesmo assim a vontade não passa.

Labirintos da memória.






Há lembranças que nunca me deixam, como moscas teimosas que insistem em pousar e pousar e pousar de novo.  Às vezes lembro apenas de algo que senti, imaginei, desejei. É triste quando até o desejo vai ficando distante da gente, em branco e preto... Há recordações que quase não reconheço mais. Algumas eu queria perder no tempo, mas não perco. Lembro até de lembranças alheias, tristes ou felizes, que me contaram em segredo pelo caminho.

Alternam-se em meu cinema íntimo os muitos filmes do meu cotidiano. Dias doces e amargos. Sons  que gostei de ouvir: gargalhadas, melodias, gemidos, assobios. Palavras mágicas que escutei. Ou que ecoam até hoje porque eu quis escutar e nunca foram ditas. Vento frio em uma manhã de sol; bebê dormindo em meu peito; criança tomando banho de chuva; café coando; casal de mãos dadas; bala de coco; croissants e capuccinos; mãos em meu rosto; panetone; pisca-pisca; ovo de páscoa; cheiro de pele. Nectarina! Sentido nenhum. Sentido até o limite. Se há limite.


A vida é o que a memória conta. E não há duas iguais, lógico. Nenhum de nós vive a mesma cena que o outro, mesmo estando lado a lado, no mesmo instante. A memória é uma louca, que me fala de uma história sempre inventada: o que houve, diluído no que imaginei que houve. O que senti, misturado com o que achei que sentiram e eu estava errado. Ou então estava certo, mas não importa porque essa é uma chave que não tenho.


São apenas os labirintos da memória. 

E ela é louca. 

E minha vontade não passa. 


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Ensaio sobre a chatice


Da série "Fotos de Celular dos Gerânios do Meu Jardim". 




Há quem não ache possível, mas eu já fui mais chato ainda!

Fui devoto fiel de uma tradição estúpida: a de aproveitar o momento em que se está com a razão para... Ser chato! Você talvez tenha sido muito mais feliz que as pessoas que conviveram comigo. Talvez tenha trilhado um caminho mais inteligente e nunca tenha tido contato com essa prática sem sentido. Pois veja este relato com curiosidade científica. Como se ficasse sabendo de que modo se comportam os nativos de um lugar exótico .

Situações de conflito acontecem na vida de todos, pelos menos nos da minha espécie. É bom que seja assim! Conflitos servem para ajustar o convívio quando, por algum motivo, alguém está desconfortável ou prejudicado. Nossos antepassados tinham um sistema ótimo para resolver os conflitos: fechar os olhos. Mais especificamente os olhos do outro, com uma pedra enorme na cabeça...


O aumento da população e a progressiva complexidade da vida social exigiram métodos menos, digamos, definitivos.  Assim surgiu a negociação. Eu acho que foi assim, pelo menos. E afinal de contas isso não é um estudo histórico, é o pretexto para que eu dê minha opinião.


Negociar, discutir, é uma arte que comporta todos os estilos, como se sabe. Quando uma das partes demonstra claramente que está certa, surge um momento crucial: o que faz a criatura que está coberta de razão? Eu, por muito tempo, aproveitei a oportunidade para ser chato. Chato, terrivelmente chato! Como se estar certo fosse um cartão verde para derramar sobre o outro um balde de arrogância e mal-humor. Até que, com o tempo, eu me dei conta do óbvio:  quando estou certo, não ganho um direito mágico de ser indelicado, grosseiro, cínico, nada disso! Ganho o prazer de eliminar mais um ponto de atrito e correr para o abraço. Figurado ou literal.



Há muita gente que sofre (e faz sofrer) do mesmo mal. Se você achou que eu era um mutante, sinto muito, isso acontece a todo instante,  é só prestar atenção. Muitas relações perdem o brilho porque a disputa pela razão tem uma sedução a mais: o momento de glória em que se pode ser cruel com o oponente. O que fica mais complicado ainda quando esse oponente divide sua cama, sua casa, sua vida...


Afinal de contas, qual é o nosso objetivo em uma discussão? No trabalho, no trânsito, com o filho, com o irmão, a esposa ou marido, tanto faz: 

O que você busca? 

Ser mais feliz ou repartir a infelicidade com o outro? 

Não tenha pressa em responder. 

Essa é uma daquelas questões em que o mais importante não é a resposta. 


É nunca esquecer a pergunta.


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Conceitos simples

Gerânio bicolor do meu jardim. 
É simples mas é dos amigos!


Gosto de cultivar algumas idéias bem simples, dessas que não fazem sucesso nenhum no mundo sofisticado em que vivemos.

Inteligência, por exemplo: pra que é que serve, mesmo? Certo, certo, é possível passar décadas esmiuçando questões filosóficas envolvidas no assunto. Mas estou falando aqui entre nós, longe dos olhos e ouvidos eruditos do mundo. Fechei a porta, pronto. Só eu e você. Agora me diga: pra que é que serve? Ok, digo minha opinião primeiro. Depois é a sua vez.

Pra fazer a vida melhor, ora! Se não for isso, pra mim não é inteligência. Pode ser qualquer coisa, mas inteligência, não é. Simples! Pode ser a sua vida, a da sua família, dos seus vizinhos, amigos, amada ou amado, sei lá... Mas tem que fazer a vida mais fácil,  mais eficiente, divertida, desenrolada, agradável!

Pra complicar as coisas já existe a burrice, a vaga está ocupada.

Conheço (e você também deve conhecer) gente que estudou muito, dentro ou fora do meio acadêmico, absorveu um volume enorme de informações, consegue impressionar todo mundo com a cultura à flor da pele... E não consegue melhorar nem a qualidade do diálogo com as pessoas com quem convive! Alguns conseguem fazer pior ainda: usam o que aprenderam pra aperfeiçoar o cinismo, lapidar a crueldade, ressaltar o vão que separa quem detém de quem não detém o conhecimento. Veja só: a inteligência como instrumento pra afastar as pessoas! Como caminho pra destruir intimidades, minar o solo das amizades! Não é inteligência, poxa. Simples!

No mundo que imagino e acredito, a inteligência será reconhecida não pelo título ou pela posição da pessoa, mas assim: 

_ Nossa, falei com um sujeito tão agradável hoje! Olha, tivemos um problema no trânsito e, quando eu me preparava pra uma discussão aos gritos, ele me tratou tão bem! Me convidou a resolver a questão com tanto jeito, tanto bom senso, que não tive como reagir de outra forma!  Em cinco minutos, a gente já conversava como amigos. Que cara inteligente! Deve ter estudado muito,  deve trabalhar em alguma coisa que exija muito da cabeça dele... Que diferença que faz, né?

Mas esse mundo ainda está na estufa, crescendo e amadurecendo. Cultivado por uma legião de homens e mulheres que sabem que a inteligência é uma ponte, cuja missão é permitir abraços onde o abismo da ignorância os impedia. 

Pensando nas pessoas que conheci, identifico facilmente as inteligentes. Algumas estudaram muito, algumas não. Mas todas, repartindo o que sabiam, fizeram meu caminho melhor do que era.  Em respeito a esses exemplos, vou tirando lascas da minha madeira e esculpindo aos poucos um sujeito que consegue fazer a vida mais bonita.

Mas agora é a sua vez: na sua opinião, a inteligência serve pra quê?



terça-feira, 25 de agosto de 2009

Leite (bom) Derramado

Quem resiste a uma vizinha assim?


Em termos absolutos, sem relavitidade nenhuma e totalmente só. Digamos, solto (ou solta) no espaço: Quem é você?

No meu caso, acho que não seria ninguém. Não consigo imaginar partido o cordão umbilical que me vincula ao restante da humanidade.

Principalmente àquela porção da humanidade que se relaciona comigo, que me alimenta diretamente de afeto e conhecimento. Amigos, companheiros de risadas e choros, erros e acertos. Aproximando mais a lente, chego aos que dividem comigo um sobrado simpático, num bairro de casas e pessoas simples, mais simpático ainda. É ali que você encontra essa minha vizinha linda e perfumada aí de cima. Os três filhos que educo e me educam numa troca sem fim, são responsáveis de alguma forma pela forma que tenho hoje.

Carol, Matheus e Bela são três estudantes que ainda não trabalham e recebem de mim o estritamente necessário para viver e crescer, em todos os sentidos que conheço. Grana para quase nada, portanto.

Mas aconteceu de um deles ouvir meus comentários empolgados sobre o livro novo do Chico, Leite Derramado. E no último dia dos pais, três carteiras quase vazias ficaram vazias de verdade...

Estou adorando o livro! A prosa do Chico está cada vez mais precisa, rica e ritmada. Quando eu penso que ele não tem mais como melhorar, ele me vem com essa...

O protagonista, já muito velho, desfia suas lembranças para ouvintes reais ou imaginários e talvez o faça para ele próprio. A cada página, faço inevitavelmente o mesmo que ele. Nessa viagem pela memória, tem lugar de destaque a chegada de cada filho em minha vida. Sou pai porque quis ser, mais do que tudo que já desejei. Não foi por acidente que, um a um, eles foram se juntando ao meu caminho. Foi pela transformação dos meus sonhos em realidade, em uma metamorfose que se renova todas as manhãs. Não só os três que financiaram meu livro novo, mas também a Bezinha, que meu coração adotou porque não pode mais viver sem ela...

Não sei de quantas escolhas terei vergonha quando o final estiver (mais) próximo. Mas sei quais as que me enchem de orgulho e preenchem meus dias com a matéria mais rica do universo!

Solto no espaço? Eu seria só um coração cheio de saudade...



sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Fracassos e sucessos


Tenho pouco tempo hoje, mas não queria deixar de escrever nem de mostrar o ipê que encontrei pelo caminho, enquanto trabalhava. Desci do carro e pisei em um chão todo rosa. Você está vendo o que vi, quando olhei para o alto.

Um protesto, rapidinho:

Não sei se você tem a mesma impressão que eu. Mas acho nossa sociedade competitiva demais! Uma competição louca, que vai corroendo todos os aspectos da vida. Mesmo tentando manter-me longe da loucura, tenho a sensação de que há um classificador automático, rotulando meus dias, meses e anos em sucessos ou fracassos. Ou consegui, ou não consegui "vencer". Ou "superei" ou não. Não importa o quê.

Olha, isso cansa, viu? E leva muita energia, que a gente poderia usar de um jeito melhor e mais gostoso. A vida pode ser mais lúdica, sem ser irresponsável.

Em um desses dias em que tentava fugir do "fracasso" e "vencer" minha cota de produção, encontrei esse ipê em uma rua qualquer. Olhar de repente para o não humano, tão lindo e completo, deu-me um choque de realidade e fiquei pensando que nos tornamos escravos das lendas que criamos.

Fracassos e sucessos, lá no fundo, são nomes que inventamos para reprimir ou estimular comportamentos. Não se pode levar isso tão a sério a ponto de confundir nossa identidade com o conceito. Isso não tem nada a ver comigo, enquanto indivíduo. Nem com você.

Um ser humano, olhado de perto o suficiente, nunca é vencedor.

Nem vencido.

Nós existimos.

Somos.

E ponto final!


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Não tem remédio...

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Algumas coisas não têm remédio. Não adianta.

No próximo domingo vou comemorar meu 20º dia dos pais! O 17º duplo e o 15º triplo! Veja você: Vivo há décadas o atrito contra as dificuldades do cotidiano, removendo as pequenas e grandes pedras da rotina. Aprendi por necessidade o significado da palavra praticidade. Um homem com uma casa pra cuidar e três filhos pra educar não tem muito tempo a perder. Ok. Tenho tudo pra ser um homem prático, certo?

Pois é! Acontece que em todas as frestas do meu dia, no menor descuido, eu volto ao mesmo ponto em que estava nos primeiros arroubos de romantismo. E olha que isso foi quando John Lennon ainda cantava Imagine ao vivo! Ao mesmo ponto, não. Pior, eu diria... Naquela época não havia dentro de mim tanta poesia, tantas histórias, tantos filmes, livros, músicas, cheiros, texturas
, tantas memórias onde amores e prazeres foram vistos, imaginados, vividos...

Fui um menino romântico demais e sofri pra burro durante os 80's. Perdi a chance de me tornar menos vulnerável com a maturidade. O que me salva é que aprendi a disfarçar durante o dia...


Para um sujeito assim, Nina Simone é uma ameaça de parada respiratória. Mas se acontecer, serei cremado sorrindo. I Put a Spell on You é uma invasão de energia densa e mágica. Uma onda que vai levando pra dentro do mar, com promessas de paixão e prazer eternos. Ouvindo, apenas, já é uma viagem. Mas a presença dela, no vídeo, incendeia tudo! A sereia negra, maravilhosa, traz a força de uma vida intensa, de entrega, luta e beleza. Tudo junto e tudo em abundância. Agora é uma onda em chamas! E não tem jeito: Vou nadando atrás do encantamento, com uma certeza ridícula e absoluta de que não há nada melhor pra se fazer na vida...
I put a spell on you... I put a spell on you...

Este texto termina aqui por dois motivos: Primeiro, para você não se distrair muito e curtir o final da música em paz. Segundo, porque estou aprendendo a falar (e escrever) menos.

Algumas coisas, enfim, têm remédio...


sexta-feira, 31 de julho de 2009

O Sentido da Vida. O meu, pelo menos.

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, a vida não para...
Solte o clipe e use a canção como trilha sonora!


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Uma conversa, hoje, lembrou-me a indagação, tão antiga: Qual o sentido da vida?

Uma amiga querida refletia ao telefone sobre o que fazemos de nossas vidas: Trabalhar, comprar coisas, continuar trabalhando para pagá-las e daí por diante é só apertar o "repeat". No plano de fundo da conversa, a dúvida sobre qual é a nossa missão no mundo, ou onde se encontra o verdadeiro sentido da existência. Essas coisas...

Tenho passado algumas décadas debruçado sobre a questão. Na teoria e, principalmente, na prática. Acredite: não foram poucos os ângulos pelos quais olhei para o assunto.

Mas vamos aos fatos.


Fotografei as flores aí de cima na última terça, enquanto tentava cumprir um mandado na zona rural. Bem, para quem não acompanha o noticiário, foi o dia em que choveu absurdamente em São José dos Campos. Carros amassados pelo granizo, bairros alagados... E o inteligente do oficial de justiça em uma estrada de terra! Evite comentários sobre isso, por gentileza, não aumente meu constrangimento. Comecei a ficar tenso. Depois, fiquei totalmente tenso! Aí não tinha mais o que fazer com a tensão e resolvi parar o carro, porque achei que aquelas flores tão coloridas, tão alegres, formavam um contraste lindo com o dia cinzento e ameaçador! Parar o carro naquela lama implicava em um risco de ficar atolado, mas quis fazer a foto mesmo assim e levar a imagem como o símbolo de um insight.

Acontece que uma semana antes meu celular quebrou, meu computador foi infectado por vírus que devastaram meus arquivos e me causaram um enorme prejuízo, meu filho ficou doente, perdeu sua carteira com documentos e cartões bancários, além de várias outras dificuldades em uma cascata que parecia interminável. A sensação era de que os problemas pulavam das gavetas, caíam das árvores e saíam dos bueiros para me perseguir... Um pesadelo!

Família reunida na mesa para definir a estratégia d
e sobrevivência:

_ Pai, não é melhor fazer umas orações, não?
_ Tá muito estranho isso! É muita coisa ao mesmo tempo...
_ Credo, parece filme de terror!
_ Será que foi alguma energia ruim?

Depois de algum tempo trocando impressões e piadas de humor negro, concluímos que o melhor a fazer era começar logo a reconstruir o que havia se perdido. Resistimos à tentação de culpar o sobrenatural e rogar ao céu que nos enviasse um técnico em informática e dinheiro para o prejuízo. A cada um dos filhos pedi que me ajudasse no que fosse capaz. Pedi ajuda com sinceridade, porque estava precisando muito!

Resumi nessa atitude o que penso sobre a vida: Eu não sei e talvez nunca saiba se existem mesmo coisas sobrenaturais, inteligências paralelas e não humanas. Mas nas humanas eu acredito. Acredito de verdade nos homens, nas mulheres e na sua capacidade de cooperação, para pequenos ou grandes projetos. Há uma teoria de que o homo sapiens sobreviveu ao neandertal porque, embora mais fraco, era mais cooperativo. Acredito nela e pretendo ser digno dessa herança.

Os dias seguintes foram (e ainda estão sendo) difíceis, mas me deixaram um sabor maravilhoso: Meus filhos cuidaram da casa, da comida, da roupa, levaram vários cafés para mim no quarto! Tudo para liberar meu tempo e minha energia para a solução dos problemas. Meu filho do meio passou umas cinquenta horas baixando e testando programas que recuperaram parte dos meus arquivos, o que reduziu muito meu prejuízo.

Aquela semana passou, como sempre acontece. Mas não somos mais a mesma família! Temos mais confiança uns nos outros e fortalecemos nossa crença na ajuda do companheiro ao lado. Não entramos em desespero, não gritamos nem ofendemos a quem amamos só porque os dias estavam difíceis. Pedimos e oferecemos as mãos, numa atitude tão ancestral quanto nossa espécie...

Sentido da vida, para mim, é tudo aquilo que se sente da vida. Não creio que haja um "sentido", entendido como direção, ou mesmo como motivo. A direção a gente vai criando enquanto vive; os motivos variam conforme o indivíduo e até mesmo conforme a época. Mas há muito para ser sentido, saboreado e depois recordado, que nós desperdiçamos por estarmos ansiosos em encontrar um culpado ou um salvador nos momentos de crise... Eu e meus três filhos lembraremos com orgulho de como atravessamos algumas tormentas e vamos rir em volta da fogueira, contando aos meus netos.

Quando colhi
a imagem de flores tão lindas no meio da tempestade, eram esses dias que me passavam pela memória.

E o carro não atolou, se é que você estava preocupado.


quinta-feira, 2 de julho de 2009

(Im) posturas

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Trilha sonora por conta de Nina Simone: My Way.

Muitos dos caminhos por onde andei, partiram-se. Eu sei bem quantos foram! De mim não se poderá dizer que não andei, nem que não fui feliz andando. Mas vejo a terra trincada quando olho para muitas de minhas pegadas... Estar na estrada é assim mesmo e o Arnaldo Antunes sempre me lembra, em uma canção muito linda, que "...não há o que lamentar, quando chega o fim do dia...".

Tenho me esforçado para que a visão do que ruiu não me impeça de ir "tocando em frente" (sempre escorrego para essa música...). Todos os dias pressinto as possibilidades de um caminho novo, seja para um lugar, seja para um coração ou ainda para uma idéia não explorada. Mas esses caminhos não coincidem mais com a estrada para a qual fui preparado. O chão que sustenta homens e mulheres, que abrigou os meus planos concretos e os impossíveis, de repente me parece estrangeiro. Talvez tenha sido sempre assim e o que mudou foi minha capacidade de reconhecer o descompasso.

Seja como for, um palco é que sustenta agora os meus passos. Mas não sou um ator, não reconheço esse palco e sinto que cedo ou tarde perceberão a impostura. Eu percebo.

Quando vejo homens e mulheres muito, muito velhos, sinto-os como companheiros de vida e de despedida de algo que já não está mais ao alcance.
Eles ao menos usam as filas preferenciais em bancos, vantagem que me faz falta às vezes... Olho os velhinhos com uma sensação de coleguismo. Algo como "eu entendo esse seu olhar perdido no tempo; também deixei alguma coisa lá...". Mas é que acompanhei e protagonizei tantas histórias, vi tantas coisas bonitas e feias, vivi tanto e tão intensamente, que sinto como se tivesse nascido há séculos! Tudo indica que meus cabelos também têm essa sensação.

Já com as crianças, compartilho um certo estranhamento da vida social. Como elas, não entendo mesmo o porquê de tantas complicações em alguns assuntos tão simples! Por que se desperdiça tanto tempo com burocracia? Heim? Com discussões infinitas e estéreis? Com vaidades que devoram o único tempo que se poderia usar brincando, rindo, fazendo qualquer coisa que desse prazer sem impedir o prazer do outro? Disseram muitas vezes em minha infância que, quando eu crescesse, entenderia bem todas as coisas. CRIANÇAS, CUIDADO: ISSO É UMA MENTIRA! Algumas coisas a gente não entende nunca porque não fazem nenhum sentido.

Em dias como hoje, cada vez menos raros, sinto-me como na música do Belchior: Muito jovem pra morrer e velho pro rock'n roll.

Mas nem tudo são labirintos! Momentos muito felizes permanecem em janelas sobrepostas da existência, ecoando em mim para sempre. Meninos e meninas: ÂNIMO! Saibam que ganhei abraços maravilhosos, lindos sorrisos, afagos generosos de amigos de verdade! Houve quem se entregasse à minha paixão, quem risse muito das piadas bobas que contei, quem confiasse em mim para tudo na vida... Houve também quem se machucasse com o que eu disse e com o que fiz. Enfim: tenho passado pela vida vivendo e, diante dos palcos, tenho escolhido atuar, mesmo não sabendo como se faz. Analisando o, digamos, conjunto da obra, não acho que fiz certo nem errado. Apenas assumo as minhas (im) posturas.

Morreu hoje o pai de um amigo muito querido.

Li hoje um livro delicioso sobre o humor peculiar, um humor quase triste, do Mário Quintana (Ora Bolas, de Juarez Fonseca - L & PM).

Não consegui trabalhar tanto, nem tão bem como queria.

E a tarde chuvosa fez minha solidão mais nítida do que eu estava disposto a vê-la.

Mas a noite chegou, finalmente. Por hoje já posso abaixar o pano...

Amanhã tem espetáculo? Tem, sim senhor...


Nao é possível a amizade, quando dois silêncios não se combinam.
(Mário Quintana)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Origens


Nasci filho de uma mendiga, em Apucarana - Norte do Paraná. Dela não sei quase nada e do meu pai, nada mesmo. Contaram-me que ela morava na rua, perto de um terminal rodoviário, onde me alimentou até os trinta dias de idade com uma rica dieta de café com leite. Plenamente justificado, portanto, meu fascínio por café.

Quando eu já era um homenzinho com trinta dias de vida e dono do meu narizinho melecado, ela me entregou a uma mulher que passava. Disse que havia dado naquele mesmo dia um menino de quatro anos e estava indo embora da cidade. Foi assim que recebi o nome Ciabattari. Não me lembro de meus sentimentos naquela época, é claro. Mas devo ter sentido falta do café e tavez do movimento dos ônibus. E dela.

Saudades à parte, a coisa estava melhorando: Saí das ruas, tiraram minhas craquinhas de sujeira, tinha até um berço!!! Yes!!! Mas um médico mal-humorado quase estraga tudo! Música de suspense, por favor. Primeiro diagnóstico, feito assim, de olho ("nem precisa exame, tenho experiência", disse):

_ Esse menino tem Síndrome de Down e Sífilis; é melhor se livrar dele o mais rápido que puder... Se ele sobreviver, o que é difícil, vai carregar muitas sequelas!

Humpf!!! Tentei protestar fazendo uma careta bem feia, mas ninguém prestou atenção, ou então achou que a careta era sintoma da doença.

Para minha sorte, o segundo médico a me examinar ainda se lembrava do Juramento de Hipócrates. Pediu exames, observou o feiosinho mais de perto e percebeu que o que parecia doença era só a falta de condições adequadas, nada mais. Ahá! Pensei comigo: Alguém ponha "Carruagens de Fogo" pra tocar, que minha corrida está só começando! Como você vê, eu era um bebê cinéfilo.


Dois detalhes desse episódio chamam muito minha atenção.

Primeiro, que eu não comecei bem minha carreira de sex symbol. A pobreza deve ter deixado naquela (nesta) criança marcas muito tristes, como deixa em tantas outras todos os dias. Nada mais justifica um diagnóstico, embora desastrado e de uma incompetência criminosa, tão pessimista.

Segundo, que a mulher e o homem que me adotaram foram muito corajosos em aceitar o desafio. Eles nem queriam adotar ninguém e já tinham um casal de filhos perfeitos. No caminho do Drumond tinha uma pedra; no deles, um bebê esquisito, filho de uma mulher que desapareceu. Naquele momento eles tiveram de usar da liberdade a que estavam condenados. Devem ter discutido muito e levado em consideração uma porção de coisas: A despesa, o tempo, os cuidados com uma criança em condições tão precárias, os preconceitos de parte da família (sim, existiram)... Tantas preocupações para quem nem queria um filho! Mas, enfim: fiquei no time.

Um ano e muita papinha depois (Sem café! Nada é perfeito...) conseguiram me deixar bem bonitinho e até tiraram a foto que ilustra este relato!

Obrigado, mãe!

Obrigado, pai!

Obrigado, médico desconhecido que fez com competência o seu trabalho!

De lá para cá... Bem, de lá para cá fui ficando feio de novo, mas já não é culpa deles, a vida é assim mesmo.


O tempo foi passando, como costuma acontecer. Tive muitos motivos para rir, muitos para chorar e o que importa é que, uma por uma, minhas feridas têm cicatrizado. Houve tantas na alma, que as do corpo desapareceram nas curvas do esquecimento. Mas nenhuma sem remédio: O afeto, o conhecimento e a arte curam todas as dores deste mundo.


Hoje penso nos quarenta anos que se seguiram àqueles dias. Tive tantas oportunidades por causa das chances que me deram quando eu era tão fraco! Minha memória tem tantas gavetas, todas tão cheias, tanta vida aconteceu depois!

Sou, de alguma forma, filho da coragem. Um mestiço que traz em si, bem misturados, dois sangues: o da liberdade e o do dever bem cumprido.
Sinto-os como dois rios nítidos e caudalosos em mim. Se um deles estivesse seco à minha volta naquele abril de 1.969, eu não usaria um blog para me comunicar. Usaria um médium.

Naqueles dias eu ainda não estava condenado à liberdade, como Sartre ensinou. Estava condenado à morte. Era tão pequeno, frágil e doente, que dependi das escolhas de outras pessoas para sobreviver, sem nem me dar conta disso.

Agora sou um homem.

Tão livre quanto um homem pode ser, com todas as cores e as dores que a escolha sempre trás. Exercito essa liberdade como posso e tento honrar todos os dias o direito que recebi de continuar vivo.

Ainda ouço Carruagens de Fogo ao fundo da cena.

E quem quiser, que conte outra...


domingo, 7 de junho de 2009

Descobrimento

Lembro-me dela assim.
Se você a viu em seguida, ela já flutuava...

Para mim ela tinha raízes. Para você, tinha asas.
E nós dois soubemos um pouco daquela verdade.


Descobrimento

Com as palavras inauguro um mundo.

Um mundo novo composto do meu eu,
Do outro em mim e das lembranças que
Resgato, modelo, reconstruo, recupero...
Um mundo de esperanças que cultivo e possibilidades que invento.
Assim, quando falo, escrevo ou canto, não se engane:
Não apenas me comunico.

Estou é construindo um porto,
À espera de quem me descubra.


segunda-feira, 25 de maio de 2009

Bom dia! Meu nome é Marcos, sou oficial de justiça, etc, etc, etc...

Há um vilarejo ali... Onde areja um vento bom!
Bairro Santa Bárbara - São Francisco Xavier

Bairro do Pocinho - São Francisco Xavier

Meu trabalho, há mais de vinte anos, é mais ou menos assim: Cruzar as distâncias, descobrir os caminhos e encontrar um outro humano debaixo de um telhado qualquer. Mesmo quando ele se esconde. Era o que fazia quanto tirei as fotos acima.

Deixo uma mensagem, cumpro um papel, olho os olhos da outra pessoa e mostro os meus. Minha passagem às vezes provoca grandes mudanças! Há momentos em que a vida muda muito e muito rápido. Em alguns desses momentos quem faz a mudança, por ofício, sou eu. Raiva, choro, desespero, angústia, gente que se separa, tudo isso faz parte da minha rotina.

Mas como ensina o Paulinho Moska, nada é tão triste assim. Quando eu parto, deixo para trás seres que têm a capacidade incrível de cicatrizar as feridas e, principalmente, de aprender com os erros. Sempre que me permitem, tento deixar isso claro de alguma forma.

Troco experiências, ensino o que sei e aprendo o que sabem. Numas vezes sorrio e acontece de sorrirmos juntos. Algumas vezes me comovo, em outras me defendo. Às vezes me estendem a mão, às vezes não e, mesmo, às vezes estendem é tentando alcançar meu pescoço!

Depois eu parto à procura de outro caminho, cruzando outras distâncias, levando um pouco do último encontro e me preparando para o próximo...

Este é, em um resumo apertado, o meu trabalho. E me dei conta que resume também, de alguma forma, a minha vida.

Acho que hoje estou meio assim, sei lá.
..

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A poesia e o amor na vida real.

Flores simples e verdadeiras, em homenagem a um amor inesperado...

Cheguei à casa simples com notícias desagradáveis. Sempre levo notícias desagradáveis por força da profissão. O homem atendeu-me desconfiado e a desconfiança piorou quando soube que a intimação era dirigida à sua mulher. Equilibrava sua rispidez no limite do desrespeito e fazia de tudo para protegê-la, tentando de todas as formas evitar que eu a incomodasse. Minha teimosia profissional venceu e eis-me diante de uma mulher de cinquenta, cinquenta e cinco anos. Traz um braço e uma perna atrofiados e sem movimentos, sequelas da paralisia infantil. Pareceu-me honesta, transparente, decente mesmo. Mas é tensa, mal-humorada e agressiva. Tudo indica que não sou o único alvo de seu nervosismo, pois toma, como disse com uma ponta de orgulho, vários remédios todos os dias para controlar suas emoções.

Mas as cenas seguintes é que me marcaram profundamente: A cada vez que o marido percebia sua exaltação, desdobrava-se em atenção e carinho, sem pudores pela presença estranha e indesejada. Dirigia-se a ela com uma doçura que em tudo lembrava o mais apaixonado dos personagens de qualquer romance. Casaram-se há décadas. Entendem? Há décadas. Ela não ostenta um único sinal que lembre um modelo de sedução ou beleza. É uma senhora desgastada pela vida difícil, pela doença que imobilizou metade de seus membros ainda na infância. E pela pobreza. Casa humilde, fogão de lenha, pintura rústica que tenta esconder as marcas da enchente do ano passado. Ela diz que às vezes pensa que seria melhor morrer. Ele enche os olhos de lágrimas. Segura sua mão com força e pede (pede, mesmo!) que nunca diga uma coisa dessas, que ela é tudo pra ele. Percebendo que fiz tudo o que pude para acalmá-la e tratá-la com respeito, o homem apertou minha mão demoradamente e o agradecimento saiu do fundo do coração. Eu sei que foi.

Fui embora com dificuldade de me concentrar no próximo mandado. Não estou acostumado com um amor assim, que atravessa tantos anos traduzindo-se em cuidados, carinho, atenção e delicadeza. Que dura tanto, que supera tanto, que se assume tanto...

terça-feira, 28 de abril de 2009

Rodando!


Ontem me senti o próprio Antonius Block, no Sétimo Selo do Bergman. Se alguém me achar exagerado, tem meu perdão porque não viu o que eu vi. Três, no máximo quatro anos. Mãos dadas em evidente aconchego com o pai (ou o avô, não importa), a expressão de satisfação máxima que um ser humano pode imaginar. Andava muito à vontade pela rua às oito, pijama rosa de flanela e chinelos minúsculos combinando. Um bicho de pelúcia levado pela orelha completava o quadro.

Pois bem: Depois da cena da família em volta de uma cesta de morangos silvestres e um pouco de leite repartido, Block encontrou o seu sentido para a vida. A morte vence a disputa em seguida... Corta!

Há duas diferenças fundamentais entre o cruzado e eu: Primeiro, que a cena que eu vi não me apresentou um sentido para a vida. Só resgatou o que tantas vezes vivi com meus próprios pequeninos, em tantas manhãs de outono. Quem sabe o tamanho deles, imagina quantas foram... Segundo, que eu não estou disputando coisíssima nenhuma com dona Morte, o que me dá direito de assumir o roteiro das próximas cenas.

Ainda não defini esse roteiro. Mas retirei do baú minhas anotações para o filme Felicidade é Possível. Por ora estou me alongando, me concentrando, mas, senhoras e senhores, aqui vou eu. Quem sabe quantos personagens ainda cabem nessa história? Eu não sei, mas está gostoso imaginar. A trilha sonora fica a cargo do meu violãozinho e não adianta reclamar, o diretor sou eu.

O que vem depois... depois eu conto.



sábado, 25 de abril de 2009

Tocando em Frente


Quem conhece a música, sacou logo como escolhi o nome do blog. Quem não conhece, não perca a chance! É uma delícia com gosto de broa de milho quentinha e café fresco... Essa foto é a lembrança de uma manhã em que vi São Francisco Xavier pequenininha, lá embaixo, com a Mantiqueira de braços enormes em volta.

Mas depois me ocorreu que há um motivo a mais: eu amo sorrisos. Como bom garimpeiro, separo bem rapidinho os falsos, os cínicos, os meramente sociais, dos verdadeiros sorrisos. Um de meus prazeres "Amélie Poulain" é ficar no parque observando as pessoas:

Sorriso de criança no gira-gira.
Sorrisos de amizade em torno do violão ou da poesia.
Sorrisos de amor! Quentes, plenos, intensos e cheios de promessas!
De agradecimento.
Para a mãe, para o filho, para o amigo e para o estranho...
Sorriso para mim! Às vezes, é para mim! E meu peito fica quentinho por uns instantes, satisfeito.

Mesmo que não sejam para mim, vou juntando um monte deles na bagagem. Há cada um tão lindo! Crianças e apaixonados são especialistas!

E levo esse sorriso...


Tocando em Frente

Ando devagar, porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais.
Hoje me sinto mais forte. Mais feliz... Quem sabe?
Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei.
Eu nada sei.

Conhecer as manhas e as manhãs.
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
E é preciso chuva para florir.

Penso que cumprir a vida seja simplemente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu vou...
Estrada eu sou.

Conhecer as manhas e as manhãs...

Todo mundo ama um dia,
Todo mundo chora. Num dia a gente chega, no outro vai embora.
Cada um de nós compõe a sua própria história.
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz.

Renato Teixeira/Almir Sater


Começa aos quarenta?

Não sei se ela começa mesmo aos quarenta. Sei não... Pode ser paranóia, mas pressinto um sorriso irônico por trás dos rostos simpáticos que me dizem isso. Pra quem não sabe, começaram a dizer com frequência no último dia 09. Se você não me abraçou e desejou felicidades, muita saúde e tudo de melhor, não se desculpe. Você não sabia, poxa! E se sabia, melhor fingir que não. Eu acredito, juro!

Olha, vou ser honesto com você: eu não sei exatamente quando a vida começa, não sei como nem quando termina, nem se termina mesmo. Também não sei exatamente como viver, como sair das dificuldades e o pior: como é que eu entro nelas! Não tenho uma única receita infalível pra repartir, exceto, evidentemente, a do meu arroz com feijão. O literal, não o figurado. Estou aprendendo que a dúvida é uma alternativa saudável:

_ O que você acha?
_ Não sei.
_ Como não?
_ Mas você muda de pergunta toda hora, pô!

Pois é. Muitas vezes não sei mesmo e me sinto à vontade assim. Fico feliz por meus filhos terem um pai que consegue admitir a dúvida, mesmo em questões fundamentais, num mundo onde todo mundo tem sempre certezas. Certezas que às vezes são injustas, preconceituosas, equivocadas, cruéis. A dúvida me dá o direito de olhar as pessoas, a vida, a morte, os relacionamentos, tudo, por vários ângulos diferentes. Gosto muito disso! Pretendo fazer esse exercício publicamente agora, com o Blog. Sabe aquele dia em que você precisa de uma palavra definitiva? Não visite esse espaço nesse dia! Eu avisei...

Sobre o Blog:

Ele sim, começa aos quarenta. E por inspiração de amigos, que também "roubaram" a idéia de amigos queridos... Aí eu fiquei pensando: mereço os famosos cem anos de perdão. Depois deles, bem... depois deles "...dêem-me a cela que quiserem, que eu me lembrarei da vida..." (A Passagem das Horas). Vou trazer pra cá algumas poesias, porque a beleza é a exceção em minhas dúvidas: dela eu tenho certeza! Fernando Pessoa abre aqui o caminho, mas eu vejo poesia em tantas coisas, tanta gente, tantas cores, tantos sons, formas, cheiros, texturas, sorrisos, lambidas, mordidas, orgasmos... Na amizade, na mão estendida, na mão que segura a outra. Até na que solta! Porque poesia nem sempre é alegria.

Para aliviar a dor dos leitores que resistiram e chegaram até aqui, troco minha prosa sofrível por trechos de A Passagem das Horas. Ufa!!! Assim serão recompensados e verão o que de mim não sei mostrar de outra maneira:

...
Não sei se a vida é pouco ou de mais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isso mais cómoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
...

(Álvaro de Campos - A Passagem das Horas).