quinta-feira, 2 de julho de 2009

(Im) posturas

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Trilha sonora por conta de Nina Simone: My Way.

Muitos dos caminhos por onde andei, partiram-se. Eu sei bem quantos foram! De mim não se poderá dizer que não andei, nem que não fui feliz andando. Mas vejo a terra trincada quando olho para muitas de minhas pegadas... Estar na estrada é assim mesmo e o Arnaldo Antunes sempre me lembra, em uma canção muito linda, que "...não há o que lamentar, quando chega o fim do dia...".

Tenho me esforçado para que a visão do que ruiu não me impeça de ir "tocando em frente" (sempre escorrego para essa música...). Todos os dias pressinto as possibilidades de um caminho novo, seja para um lugar, seja para um coração ou ainda para uma idéia não explorada. Mas esses caminhos não coincidem mais com a estrada para a qual fui preparado. O chão que sustenta homens e mulheres, que abrigou os meus planos concretos e os impossíveis, de repente me parece estrangeiro. Talvez tenha sido sempre assim e o que mudou foi minha capacidade de reconhecer o descompasso.

Seja como for, um palco é que sustenta agora os meus passos. Mas não sou um ator, não reconheço esse palco e sinto que cedo ou tarde perceberão a impostura. Eu percebo.

Quando vejo homens e mulheres muito, muito velhos, sinto-os como companheiros de vida e de despedida de algo que já não está mais ao alcance.
Eles ao menos usam as filas preferenciais em bancos, vantagem que me faz falta às vezes... Olho os velhinhos com uma sensação de coleguismo. Algo como "eu entendo esse seu olhar perdido no tempo; também deixei alguma coisa lá...". Mas é que acompanhei e protagonizei tantas histórias, vi tantas coisas bonitas e feias, vivi tanto e tão intensamente, que sinto como se tivesse nascido há séculos! Tudo indica que meus cabelos também têm essa sensação.

Já com as crianças, compartilho um certo estranhamento da vida social. Como elas, não entendo mesmo o porquê de tantas complicações em alguns assuntos tão simples! Por que se desperdiça tanto tempo com burocracia? Heim? Com discussões infinitas e estéreis? Com vaidades que devoram o único tempo que se poderia usar brincando, rindo, fazendo qualquer coisa que desse prazer sem impedir o prazer do outro? Disseram muitas vezes em minha infância que, quando eu crescesse, entenderia bem todas as coisas. CRIANÇAS, CUIDADO: ISSO É UMA MENTIRA! Algumas coisas a gente não entende nunca porque não fazem nenhum sentido.

Em dias como hoje, cada vez menos raros, sinto-me como na música do Belchior: Muito jovem pra morrer e velho pro rock'n roll.

Mas nem tudo são labirintos! Momentos muito felizes permanecem em janelas sobrepostas da existência, ecoando em mim para sempre. Meninos e meninas: ÂNIMO! Saibam que ganhei abraços maravilhosos, lindos sorrisos, afagos generosos de amigos de verdade! Houve quem se entregasse à minha paixão, quem risse muito das piadas bobas que contei, quem confiasse em mim para tudo na vida... Houve também quem se machucasse com o que eu disse e com o que fiz. Enfim: tenho passado pela vida vivendo e, diante dos palcos, tenho escolhido atuar, mesmo não sabendo como se faz. Analisando o, digamos, conjunto da obra, não acho que fiz certo nem errado. Apenas assumo as minhas (im) posturas.

Morreu hoje o pai de um amigo muito querido.

Li hoje um livro delicioso sobre o humor peculiar, um humor quase triste, do Mário Quintana (Ora Bolas, de Juarez Fonseca - L & PM).

Não consegui trabalhar tanto, nem tão bem como queria.

E a tarde chuvosa fez minha solidão mais nítida do que eu estava disposto a vê-la.

Mas a noite chegou, finalmente. Por hoje já posso abaixar o pano...

Amanhã tem espetáculo? Tem, sim senhor...


Nao é possível a amizade, quando dois silêncios não se combinam.
(Mário Quintana)

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